Grito
‘Seria preciso’;
se fosse possível,
‘escrever uma estória dura como aço’;
ou até bastante mais: diamantes africanos;
‘que envergonhasse os homens de sua existência’.
Seria.
Mas qual o espanto do ouropeu
ao descobrir que se o “índio” não se envergonhava de sua nudez
era porque pra ele ‘tudo é rosto’,
haveria agora estranheza
ao se perceber que já não há vergonha,
porque já não há rostos:
tudo é máscara.
Seria preciso ainda
que essa estória fosse lida,
que se a compreendesse,
que dela se seguissem práticas.
¿Mas como escrêve-la,
se as palavras são sempre outras,
todo o tempo.
¿Como compreendê-las,
se já não tem sentido,
apenas preço.
¿Mas como agir,
se já não restam meios,
chegou-se ao fim.
No coração da Europa,
Como ‘en el alto de los Andes’,
E nas minas do Congo ou de Nanling
Em Trenchtown e nas margens do Ganges,
Tudo isso se deu a conhecer.
Sabe-se agora que tudo que resta é a fé,
da humanidade a maior benção,
a maior maldição.
da dura estória,
sobrou o grito.
um grito que abale toda a fé.
¿Mas haverá ainda ouvidos?
à Robert Sutterlütti (1957-2009)
in memoriam