domingo, 30 de maio de 2010

Grito

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Grito

‘Seria preciso’;
se fosse possível,
‘escrever uma estória dura como aço’;
ou até bastante mais: diamantes africanos;
‘que envergonhasse os homens de sua existência’.

Seria.

Mas qual o espanto do ouropeu
ao descobrir que se o “índio” não se envergonhava de sua nudez
era porque pra ele ‘tudo é rosto’,
haveria agora estranheza
ao se perceber que já não há vergonha,
porque já não há rostos:
tudo é máscara.

Seria preciso ainda
que essa estória fosse lida,
que se a compreendesse,
que dela se seguissem práticas.

¿Mas como escrêve-la,
se as palavras são sempre outras,
todo o tempo.
¿Como compreendê-las,
se já não tem sentido,
apenas preço.
¿Mas como agir,
se já não restam meios,
chegou-se ao fim.

No coração da Europa,
Como ‘en el alto de los Andes’,
E nas minas do Congo ou de Nanling
Em Trenchtown e nas margens do Ganges,
Tudo isso se deu a conhecer.

Sabe-se agora que tudo que resta é a fé,
da humanidade a maior benção,
a maior maldição.

da dura estória,
sobrou o grito.
um grito que abale toda a fé.
¿Mas haverá ainda ouvidos?

à Robert Sutterlütti (1957-2009)
in memoriam