terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Falando Em Drummond

Trabalhas sem alegria para um mundo caduco,
onde as formas e as ações 

não encerram nenhum exemplo.
Praticas laboriosamente os gestos universais,
sentes calor e frio, falta de dinheiro,

fome e desejo sexual.
Heróis enchem os parques da_

cidade em que te arrastas,
e preconizam a virtude, a renúncia,

o sangue-frio, a concepção.
À noite, se neblina,

abrem guarda-chuvas de bronze
ou se recolhem aos volumes_

de sinistras bibliotecas.
Amas a noite_

pelo poder de aniquilamento que encerra
e sabes que, dormindo,

os problemas te dispensam de morrer.
Mas o terrível despertar_

prova a existência da Grande Máquina
e te repõe, pequenino, 

em face de indecifráveis palmeiras.
Caminhas entre mortos e com eles conversas
sobre coisas do tempo futuro_

e negócios do espírito.
A literatura estragou tuas melhores horas de amor.
Ao telefone perdeste muito,

muitíssimo tempo de semear.
Coração orgulhoso,

tens pressa de confessar tua derrota
e adiar para outro século a felicidade coletiva.
Aceitas a chuva, a guerra, 

o desemprego e a injusta distribuição
porque não podes, sozinho, 

dinamitar a ilha de Manhattan.
Carlos Drummond de Andrade