Trabalhas sem alegria para um mundo caduco,
onde as formas e as ações
não encerram nenhum exemplo.
Praticas laboriosamente os gestos universais,
sentes calor e frio, falta de dinheiro,
fome e desejo sexual.
Heróis enchem os parques da_
cidade em que te arrastas,
e preconizam a virtude, a renúncia,
o sangue-frio, a concepção.
À noite, se neblina,
abrem guarda-chuvas de bronze
ou se recolhem aos volumes_
de sinistras bibliotecas.
Amas a noite_
pelo poder de aniquilamento que encerra
e sabes que, dormindo,
os problemas te dispensam de morrer.
Mas o terrível despertar_
prova a existência da Grande Máquina
e te repõe, pequenino,
em face de indecifráveis palmeiras.
Caminhas entre mortos e com eles conversas
sobre coisas do tempo futuro_
e negócios do espírito.
A literatura estragou tuas melhores horas de amor.
Ao telefone perdeste muito,
muitíssimo tempo de semear.
Coração orgulhoso,
tens pressa de confessar tua derrota
e adiar para outro século a felicidade coletiva.
Aceitas a chuva, a guerra,
o desemprego e a injusta distribuição
porque não podes, sozinho,
dinamitar a ilha de Manhattan.
Carlos Drummond de Andrade
terça-feira, 19 de janeiro de 2010
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